quarta-feira, agosto 08, 2007

Quinze anos

Quinze anos é muito tempo. São muitas lembranças. Quase metade da vida. Descobertas a dois. O último ano do liceu, o primeiro da faculdade, amigos que foram, outros que vieram, discussões, amuos, beijos, noites com estrelas e noites com tempestades. Sobretudo muitas coisas partilhadas, referências que mais ninguém entende.Aquela fotografia na parede do quarto, tirada durante a primeira viagem a Nova Iorque. Desilusões, dias bons e dias maus. Tanta coisa guardada em quinze anos. Foram praticamente os primeiros namorados um do outro, que as paixões da escola primária não contam e a adolescência já foi também a dois, mesmo ainda antes do primeiro beijo, na viagem de finalistas do 9º ano. Depois foi o namoro, os jantares em casa dos pais, o casamento, porque sim, porque estavam apaixonados, porque os pais dela faziam questão, que a eles pouco lhes importava mais um papel assinado. E a casa nova, com os móveis comprados no Ikea de Madrid, puzzles montados, peça por peça, depois do trabalho, em interminávis noites de inverno.
Os móveis ficaram na casa que antes era dos dois. O gato também. Só ele é que saiu. Dos quinze anos só quis trazer as lembranças e, mesmo essas, tratou de as arquivar rapidamente. Voltou a ser livre. O tempo voltou a ser só seu. Acabaram-se os dias e as noites a dois, as férias planeadas a dois com meses e meses de antecedência, porque era assim que ela gostava de fazer, como tudo na vida, sempre devidamente anotado na agenda. O tempo voltou a ser só seu e já pode, finalmente, ter todas as namoradas que nunca teve, porque só a teve a ela e não sabia que lhe faltavam as outras, mais as experiências todas que nunca teve e que nenhum homem pode deixar de ter. É isso que explica aos amigos, com quem agora pode combinar copos todas as noites, sempre que lhe apetecer. Quinze anos é muito tempo, mas as lembranças estão arquivadas e há um mundo de descobertas à sua frente. Só ainda não se conseguiu livrar do estúpido vazio que lhe dá quando acorda a meio da noite e não há nada do lado esquerdo da cama. Mas até isso há-de passar.

4 Comments:

Blogger Isa said...

Re-bem-vinda! ;-)

11:33 da manhã  
Blogger panamá said...

Mais um conto real. Conheço imensos casos destes. De relações que começaram no liceu e que, passados os "quinze anos", urge dar o "grito do ipiranga" e como que "abrir a pestana" para o que não se viveu...atribuindo-se a culpa a esse vínculo de anos. A questão é...e depois de se viverem os copos, as/os namoradas/dos e essa liberdade? O que fica? Talvez seja uma oportunidade de encontrar um novo amor...
Obrigada por teres voltado, minha jóia! Muitas beijocas.

11:55 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Que bom que é chegar ao blog e ver que há mais uma história. Parabéns e obrigada.

4:53 da tarde  
Anonymous *ci* said...

Oi T&V também estou feliz q tenhas voltado. E o conto, bom sobre ele, fico já querendo ouvir o outro lado da história. rsrsrs. bjoss

7:08 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home