terça-feira, dezembro 12, 2006

Irreal

E agora, Quim Barreiros, e "a cabrinha". Na fila da frente, um senhor que veio acompanhar a mulher, remexe-se na cadeira e acompanha o cantor no refrão. Duas miúdas brasileiras que estão de pé, ensaiam um passinho de dança e animam ainda mais quando sobe ao palco Michael Carrera, filho de outra grande estrela, que dá os primeiros passos no mundo da música pimba. Estão lá todos, no programa que a TVI dedica às crianças dos hospitais. E é a TVI que anima a sala de espera do hospital de São José, desde o Você na TV, com o grande Luis Goucha e suas muxachas (não me perguntem os nomes),desta vez com as grandes Lili e cinha, passando pelo telejornal da hora do almoço, abundante em notícias sobre acidentados em Espanha, mortos nas estradas nacionais e viúvos indemnizados 14 anos depois por negligência hospitalar. Não há comando, mas também ninguém se atreviria a mudar de canal e enfrentar a oposição dos velhotes que ocupam as cadeiras, à espera de serem chamados para lhes tratarem da dor na perna, da dor nas costas, da tensão que subiu, do colesterol que está nos píncaros.

A sala de espera do hospital de São José deixa ainda mais doente quem tenha de lá se sentar. E as esperas são longas. É preciso esperar pela triagem e muito mais ainda se calha um nível 3, que é a categoria a que são remetidos os casos considerados não urgentes. Grande parte dos velhotes têm um nível 3 (se calhar porque os outros já estão devidamente acomodados nas macas estacionadas nos corredores) e passam lá boa parte do dia, a criticar os oito euros e meio da taxa moderadora, que "eles" subiram quase sem ninguém dar por isso, sempre a ir ao bolso das pessoas e sem fazerem obras, nem porem um ar condicionado que resolva o problema dos pés e das mãos gelados pelas horas de espera.

Pela sala de espera não passam os casos mais graves, mas a inevitável ida aos Balcões deixa qualquer um de rastos. São filas e filas de camas alinhadas, num open space que lembra os hospitais de campanha dos filmes da 2ª guerra mundial. As conversas cruzam-se no ar. Das dores de todo o género e feitio, à frase do miudo que entra de repente a dizer que o mandaram ali para ser Circuncisado e se recusa a sair, mesmo quendo o médico lhe diz que tal operação não é nenhuma urgência e que primeiro tem de marcar consulta.

Gostava de saber se o ministro da Saúde ou qualquer um dos seus colegas de Governo, incluindo o Primeiro, alguma vez passou seis ou sete horas na sala de espera do hospital de São José à espera de saber o resultado de uma análise, mas estou tentada a apostar que não.

5 Comments:

Blogger João Barbosa said...

e o que se pode dizer perante isto tudo? ... e se eles querem um abraço ou um beijinho, nós pimba! nós pimba!

9:06 da tarde  
Blogger MCM said...

Que triste viver num pais assim. Descreveste tal qual.

9:13 da tarde  
Blogger sónia said...

Infelizmente continua tudo na mesma... e tens razão, ir a um hospital é deprimente e só nos faz ficar mais doentes ainda... é de evitar ao máximo.

10:55 da manhã  
Anonymous maray said...

começo a achar que ser "do governo" dá boa e longa vida. Veja os ditadores latino-americanos: duram uma eternidade e quando vão aos hospitais...voltam!! Já o povão..:)

2:06 da tarde  
Blogger mfc said...

Depois queixam-se que existem bombistas suicidas!!!

8:48 da tarde  

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