quinta-feira, setembro 07, 2006

Medo

Sei que ando desaparecida, que deixei de atender o telemóvel e não respondo às mensagens dos amigos. Mas tem de ser. Como posso enfrentá-los agora e explicar-lhes que voltei para ele, que não apresentei queixa na GNR e que aceitei passar uma borracha em cima daquela noite e fingir que nunca aconteu? Sei que não compreenderão, por isso ando desaparecida. Talvez acabem por se esquecer e um dia destes voltem a convidar-nos aos dois e às crianças para jantar, como antes costumavam fazer. Até lá não responderei aos telefonemas, porque assim é mais fácil e não terei de dar explicações. As marcas desapareceram-me do rosto e já não as vejo lá quando me olho no espelho, o que ajudou a esquecer. Também já não sinto dores nas costas no sitio onde ele me bateu e há noites em que, quando nos deitamos ao lado um do outro e desligamos a luz, imagino que tudo não passou de um sonho mau, como aqueles que tinha quando era miuda e o meu pai fechava a minha mãe na cozinha e discutiam até de madrugada. Sinto-o ali, adormecido, a respiração calma de uma consciência leve, e ponho-me a pensar se não terei mesmo sonhado tudo. Se calhar foi por isso que deixei passar o prazo para apresentar queixa, apesar de a GNR me ter aconselhado a faze-lo quando veio cá a casa a meio da noite, depois do telefonema da vizinha do lado. Se calhar foi por isso, ou então foi porque me faltou a coragem de ter de contar ao mundo que sou mais uma que apanha do marido, a coragem de mandar tudo ao ar, de perder a casa acabada de comprar e a vida de todos os dias, com os seus caminhos certos e familiares. Passou um mês, a realidade já se confunde com os sonhos e ao vê-lo aqui ao meu lado, adormecido, respiração suave de consciência leve (ou de falta dela), decido mais uma vez que não atenderei telefonemas nem responderei a mensagens. Porque se nem sou capaz de explicar a mim própria porque voltei para ele, como conseguirei contar aos amigos?

18 Comments:

Anonymous lr said...

História muito bem escrita, sim senhora.
Lá está: ficção que não é ficção, lamentavelmente!, mas demasiado
comum e vulgar.

12:01 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Sempre bem escrito.., e sentido como se fosse na 1ª pessoa (ainda bem que sei que não és tu) e infelizmente estas histórias são cada vez mais comuns... mas bastante invulgares atendo ao tipo de violência vivênciada por estes seres humanos. E para quem está perto destas pessoas é mais fácil fechar os olhos e fingir que estas histórias são uma coisa comum e vulgar..., que não é nada que nos diga respeito e não podemos fazer nada..e até nutrimos por estas sítuações alguma indifrença e desrespeito, permitindo assim que o agressor permaneça impune que a vítima continue com a sensação de beco sem saída. Felismente existe T&V para nos alertar, também ,para estas realidades, é bom saber que ainda hà seres solidários e conscientes. Mar

11:43 da manhã  
Blogger panamá said...

Brilhante! Fico muito, muito feliz por este blogue voltar a encarnar personagens pertinentíssimas, que existem e que não devemos ignorá-las! Parabéns, minha jóia, pela lucidez!beijinhos e continua, por favor

3:47 da tarde  
Blogger t&v said...

obrigada às três, cada uma à sua maneira...

11:18 da manhã  
Blogger alfacinha said...

infelizmente esta é uma realidade q afecta mt gente.
gostei mt do tema e da forma como o abordaste.
bjs

7:49 da tarde  
Blogger MCM said...

Bem, como sempre.

7:50 da tarde  
Blogger ci said...

Mais uma vez seu conto me surpreende pela força da realidade. Acabo de estar com uma amiga querida, que passou por isso e ainda hoje vive atormentada, apesar dele estar morando em outro estado. Acho que a vergonha e o medo andam lado a lado nesse tipo de relação.

3:15 da manhã  
Blogger t&v said...

Ci!!
o que aconteceu ao Particularides??

3:54 da tarde  
Anonymous maray said...

A estatística dos casos de violência contra a mulher é muito triste, por aqui. Durante anos tivemos que disseminar a frase " quem ama não mata" como campanha. É trágico, não é, ter que repetir isso à exaustão! Fora o sentimento " de culpa" que é incutido nas mulheres que sofrem violência. chegam a achar que o marido pode ter motivos. Dão relatos de que " esqueci de fazer o jantar dele, coitado" ou "não costurei a roupa" e por aí vai. Melhorou um pouco com a criação das delegacias da mulher mas temos ainda um longo caminho pela frente pra mudar essa concepção.
Beijos.

5:07 da tarde  
Blogger Coool said...

A história, essa é apenas uma. Mas as causas são sempre as mesmas: medo, falta de coragem para enfrentar a realidade, desejo de segurar uma estabilidade que já não existe, proteger uma suposta harmonia que há muito desapareceu!

É uma história de vida... uma história de muitas vidas!!

Aquele beijinho!

7:38 da tarde  
Blogger sónia said...

Aqui está uma história que compreendo, mas não concebo...nunca o faria, nunca mesmo!

9:57 da manhã  
Blogger elisa said...

As mulheres que se encontram neste tipo de situação também hão de ter dito nunca, um dia....e isso dá medo...por isso mais vale repetí-lo para esconjurá-lo: nunca, nunca,nunca, nunca....
Beijnhos e parabéns por mais um texto fantástico

3:13 da tarde  
Anonymous ci said...

Oi T&V soh agora vi teu recado. Se te contasse a história de estar com o particularidades fora do ar, vc, com certeza, faria um conto, KKKK. Vamos dizer q estava recebendo uns comentários anonimos e preferi dar um tempo. E ainda nao tive inspiração para criar outro, então, por enquanto, soh via email. Mas sempre venho te visitar. Bjocas.

3:07 da manhã  
Anonymous ci said...

Oi T&V soh agora vi teu recado. Se te contasse a história de estar com o particularidades fora do ar, vc, com certeza, faria um conto, KKKK. Vamos dizer q estava recebendo uns comentários anonimos e preferi dar um tempo. E ainda nao tive inspiração para criar outro, então, por enquanto, soh via email. Mas sempre venho te visitar. Bjocas.

3:07 da manhã  
Blogger chantilly said...

"mandar tudo ao ar" será sempre ficar

7:25 da tarde  
Anonymous pml said...

excelente texto. excelente.

6:47 da tarde  
Blogger cruelenelcartel said...

excelente texto!
Realmente é incrivel como nos manifestamos através das nossas ausências, como elas nos delatam aos olhos do observador atento.
de vez em quando venho aqui visitar o blog, chamou me a atenção talvez por dançar tango...
tu danças?

aparece no meu

tudoabanenadacai.blogspot.com

5:41 da tarde  
Blogger Sandra said...

Muito corajoso este teu texto! Gostei!

10:33 da tarde  

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