terça-feira, julho 04, 2006

Da minha janela

A minha janela abre-se sobre a cidade. Desligo todas as luzes, adivinho mais do que vejo as teclas do computador, e lá vou eu. Daqui posso viajar até ao rio, passar a ponte, inventar o que existe para lá da igreja da Penha, entrar pelas janelas dos hotéis, passar para o lado de lá da colina e sentar-me no miradouro da Graça.

O meu avô, que nasceu no século XIX e viajou até à Alemanha, um entre milhares de portugueses enviados para a I Grande Guerra, que conseguiu voltar e depois viveu até quase aos 90 anos num monte perdido no meio do Alentejo, contava-me histórias onde habitavam cavalos que corriam mais velozes do que o pensamento e por isso viajavam por todo o mundo. Com a minha janela é assim. Posso voar para onde quero, atrás das luzes da cidade. Posso até viajar até à Lua, que hoje olha para mim, lá de cima, e entra pela minha janela dentro.

Da minha janela sobre a cidade, contemplo um bocadinho do mundo e invento o resto. Dantes achava que não conseguiria viver sem esta vista, sem este espaço imenso que se abre à minha frente e que me faz sentir a mais feliz das alentejanas que Lisboa adoptou. E, no entanto, agora sei que não.

Dentro de um mês a minha janela será substituída pelo meu jardim. Um limoeiro, uma laranjeira, uma ameixeira, duas árvores cheias de anos e de histórias de que ainda não sei o nome. Mais as roseiras que lá hei-de plantar, o rosmaninho e a salva e o mangericão. E lá, tenho a certeza, hei-de sentir-me novamente a a mais feliz das alentejanas que Lisboa adoptou.

O meu avô havia de gostar do meu jardim.

9 Comments:

Blogger Margot said...

Também sou uma alentejana, que, como tu, Lisboa adoptou.
Agora não troco isto por nada.
Um dia quererei, provavelmente, voltar.

8:58 da manhã  
Blogger elisa said...

Fizeste-me viajar até ao teu jardim:)!
Tudo de bom para ti e para ele;)!

11:45 da manhã  
Blogger João Barbosa said...

um dias no castelo de são jorge cheirou-me a figos. achei estranho e não quis ligar, mas o aroma teimou e obrigou-me a investigar. Sim, há uma figueira mesmo debaixo da muralha, perto da Casa dos Leões.
Gosto quando a cidade se junta ao campo. Coisa que acabei de ler.
Sabes, moro perto da Penha de França e tantas vezes me debrucei nos miradouros da Graça e da Senhora do Monte... Sabes, brinquei tantas vezes no Alentejo...
Sabes, trouxeste-me memórias felizes.
beijinhos

1:14 da manhã  
Blogger Fee said...

Que vontade que me deste de viver em Lisboa e aproveitar todas as vivências típicas da cidade! E que história bonita que contaste! É bom ter avós que são marvailhosos e nos deixam saudades,não é?
Um beijinho grande de primeira visita e uma promessa de mais visitas!

9:27 da manhã  
Blogger maria said...

este texto é tão apaixonado..."e lá tenho a certeza hei-de sentir-me a mais feliz das alentejanas que lisboa adoptou":)

2:17 da tarde  
Anonymous Conde Z said...

ah, miss travessa, só há uma forma de uma alentejana se sentir a mais feliz das lisboetas no seu oásis: é com outro alentejano ao lado, numa bela espreguiçadeira à sombra da laranjeira, com o seu cão deitado aos pés, aguardando que lhe venhas trazer o seu copo de tinto e mais um cigarro (repara no "lhe venhas trazer"), te sentes na outra espreguiçadeira e te prepares para ouvi-lo inventar-te séculos de histórias dessas árvores ainda anónimas.

4:22 da tarde  
Anonymous conde Z said...

e na lista das plantações que não falte salsa, hortelã e, óminhamiga!, poejos.

4:24 da tarde  
Blogger t&v said...

Meu querido conde:
mal posso esperar...
por enquanto faltam a espreguiçadeiras, há vários metros (em altura) de relva para desbastar e ainda teremos de apresentar o seu cão aos meus gatos, mas isso são pormenores. e, claro, não faltará no meu jardim a colecção de ervas de cheiro e de tempero...

12:56 da manhã  
Blogger MCM said...

Que sorte tem Lisboa em ter alentejanos assim!

3:01 da tarde  

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