segunda-feira, setembro 19, 2005

Dez horas

Conheceram-se num avião, a muitos mil pés de altitude, a meio caminho de uma viagem desde o outro lado do mundo, sentados nos lugares da económica, pernas encolhidas, hospedeiras de olhar frio e superior, comida deslavada e um vizinho da frente que ressonou durante dez horas seguidas. Não teria sido melhor se tivessem viajado em primeira classe e lhes tivessem servido lagosta com champanhe, porque dez horas foram suficientes para saberem tudo um sobre o outro. Se calhar porque a altitude lhes destravou o cérebro, fez baixar as defesas e a vida ficava lá em baixo, demasiado distante para se lembrarem dela. Se calhar porque, sem o saberem, tinham esperado a vida toda por aquela viagem, sempre a contrariarem as teorias parvas de que algures por aí andaria a sua outra metade.

Dez horas que mudaram o mundo. Os seus mundos. Dez horas em que foram capazes de rir, de falar, de ouvir e de, simplesmente, ficar em silêncio, as núvens lá em baixo a esconder o mar, as estrelas ali à mão e, depois, o sol a nascer num festival de cores reflectidas nos olhos, mãos que nunca se tocaram porque não era preciso.

No fim, não houve despedidas. Havia a namorada à espera no átrio das chegadas, o marido e os filhos lá fora, no carro, a vida, cá em baixo, para continuar a levar, como sempre, como todos os dias. Não houve trocas de números de telefone nem promessas de novos encontros.

10 Comments:

Blogger Margarida Atheling said...

A vida, às vezes, é assim estúpida!
Tantas vezes!!!
Tanto que chega a dar vontade de nos perguntarmos se a nossa vida - a vida a sério - não se resume a umas horas, vividas lá num momento preciso, e o resto é apenas vegetar.

Beijinhos!

10:13 da tarde  
Blogger joana said...

Pode ser q os seus destinos s voltem a cruzar! Noutro espaço! Noutro tempo!

11:36 da manhã  
Blogger ISA said...

Muito fixe mais uma vez. Maybe in the next life...

11:54 da manhã  
Blogger sldance said...

Existem encontros que só são perfeitos por serem efémeros. Por sabermos que não existe a mínima hipótese de prolongar ou de repetir o mesmo momento. E devem permanecer assim.

12:17 da tarde  
Anonymous maray said...

Muito, muito bom.

abraço grande

4:51 da tarde  
Blogger Kgrilos said...

quem nunca passou por uma situação semelhante que atire a primeira pedra (é claro que digo isto descansadamente à frente do monitor)

estória deliciosa.... parabéns

10:51 da tarde  
Blogger al said...

Muito giro, mas confessa lá: estiveste a rever o "Lost in Translation" um destes dias na televisão...

9:28 da manhã  
Blogger monica said...

margarida do 1º comentário: porque é que isto há-de ser uma vida estúpida? pelo contrário, estas coisas dão cor à vida que, já se sabe, não pode ser uma exaltação contínua - não se ia aguentar!

se há coisas que fazem bem à alma são estas inúmeras histórias que poderiam acontecer e que nos deixam uma sensação vaga e doce de renúncia, um eterno "e se..." a embalar-nos nos dias mais cinzentões.

obrigada t&v

11:02 da manhã  
Blogger polegar said...

tenho pena desses dois, porque sei a sensação de descobrir que se estava conformado com uma coisa... e saber de repente que há coisas muito certas lá longe. ficará o sabor amargo de não ter feito (mais) nada...

de qualquer das formas já reparei, cara t&v, que sei qual é a sensação de muitos dos teus textos... bolas, tocas cá fundo! (no bom sentido, claro, hem ;)

beijinhos e até ao próximo post.

12:37 da tarde  
Blogger sónia said...

A isto se chama: O sal da vida.... ;)

1:13 da tarde  

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