sábado, julho 16, 2005

A duas vozes

ELE

Agrediu-me. Saltou da mota, de repente, e mandou-me com uma pedra à cabeça. Bom, na verdade não foi bem uma pedra, mas podia muito bem ter sido e disso não vale a pena falar, que um homem tem de preservar o seu orgulho. Fiquei tão atarantado que nem consegui deixá-lo com um olho negro, mas está lixado comigo, porque daqui para a frente tem todos os polícias da cidade à perna. O Silva, que me deve vários favores, desde que lhe operei a sogra, já tratou do assunto. Além disso, metade do corpo da GNR tem ficha lá no consultório. Como ele também tinha, aliás. Ele e a mulher, a loira mais deslumbrante que até hoje me apareceu na consulta. Vinha com uma coisa de nada, mas encaminhei-a para o meu consultório no Centro e bastou uma semana de auscultações para experimentarmos os dois a qualidade da maca dos doentes, a cadeira do dentista, o tapete de arraiolos do chão e o sofá da sala de espera. O problema foi ela apaixonar-se. É sempre esse, aliás, o problema das mulheres. Às tantas já não lhe chegavam as consultas semanais. Queria flores, queria jantares no Eleven, queria fins-de-semana no Hotel da Ericeira quando o marido estava de serviço. Eu fui-lhe fazendo as vontades e desta vez, nem sei como é que me aconteceu, não ataquei logo com o discurso do não estou preparado, ainda me sinto traumatizado com o divórcio e fórmulas afins, que dão sempre muito resultado. Foi o maior erro da minha vida, porque agora tenho a cabeça partida e a loira lá em casa, a mudar-me a decoração da sala e a encher a estante de bibelôtes. Há uma semana, depois de mais uma consulta personalizada, contou tudo ao marido. E à mãe, e às amigas, e ao mundo. Depois, fez a mala e apareceu-me à porta, lavada em lágrimas, a dizer que não aguentava nem mais um minuto com tanta mentira, que me ama desesperadamente e que comigo é que quer ficar até ao fim dos seus dias. E eu, que quero é chegar ao fim dos meus dias descansadinho e sem uma gaja a foder-me o juízo, não sei o que hei-de fazer, não sei como é que lhe hei-de dizer que já não a posso ver à frente, que está gorda e cheia de celulite, que devia deixar de pintar o cabelo porque aquele loiro não lhe fica nada bem. Se calhar digo-lhe só que acabou e pronto, está feito.

ELA

Coitadinho do meu amor, com a cabeça naquele estado, não posso olhar para ele que me dá logo vontade de chorar. O Joaquim foi um cobarde, onde é que já se viu, apanhar assim um homem de surpresa e deixá-lo naquele estado? Só me pergunto como é que pude estar tantos anos casada com um tipo destes. E logo eu, que fui sempre tão honesta, que tive a coragem de lhe contar que não podia continuar com ele porque estava perdidamente apaixonada pelo nosso médico de família. Que tive a coragem de lhe dizer que preciso de sexo, que com ele já não tinha um orgasmo desde a noite de nupcias, quando ainda nem sequer sabia muito bem o que isso era. Que já não aguentava passar-lhe as camisas a ferro e aturar a mãe dele sempre a dizer mal dos meus cozinhados. Que já não aguentava a vidinha de merda com que viviamos há anos e que redescobri a vida na marquesa do consultório do doutor. É assim que ele paga a minha honestidade. Mas a vida continua e nunca me senti tão feliz como agora. A vivenda do doutor já nem parece a mesma. Agora tem um toque feminino, tem flores na janela, lençois de cetim e amor por todo o lado. E já não precisamos de nos enfiar em hotéis às escondidas, porque podemos gritar ao mundo que nos amamos e que vamos ser felizes até ao fim dos nossos dias. Qualquer dia digo-lhe que quero ter um filho e tenho a certeza que os olhos deles hão-de brilhar de alegria e que há-de amar-me ainda mais. Muito mais.

6 Comments:

Blogger André Batista said...

Bom Post!

1:21 da manhã  
Blogger sónia said...

Estas histórias dão que pensar...mesmo a um Domingo!

4:05 da tarde  
Blogger panamá said...

Espectacular! Os estereótipos completamente escarrapachados! Que lucidez, minha jóia;) parabéns e um grande beijinho!

3:27 da tarde  
Blogger polegar said...

ai as vidinhas... era tudo tão mais fácil se não houvesse espaço para sonhar... deixava-se de poder gozar com os sonhos dos outros!
bom texto!

12:52 da tarde  
Blogger joana said...

Parabéns! É um post mt interessante do ponto de vista literário!!Q tal transformar estes posts em livro?!

1:53 da tarde  
Blogger Margarida Atheling said...

É a velha questão da "perpectiva"!

7:54 da tarde  

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