sexta-feira, abril 15, 2005

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Querida t&v:

Onde andam os homens deste mundo a quem podemos oferecer os nossos pêssegos, salvo seja, naturalmente, porque, vejo agora, essa metáfora que usaste na tua última história presta-se a algumas interpretações dúbias, mas enfim, adiante. Bom, dizia eu, ou perguntava, aliás, onde andam os homens deste mundo, esses que podem muito bem ser a metade que nos falta e que continuamos a procurar? Sim, porque as coisas lidas assim, como tu as escreves, parecem muito fáceis. E depois, na prática, bem, na prática, ao que tudo indica, não existem. Os homens, leia-se. Melhor dizendo, homens românticos, que não se importem de passar uma tarde inteira nas compras e acabar o dia a beber um gin tónico no bar do Hotel do Chiado, de mãos dadas a espreitar o rio; homens que saibam cozinhar, que não deixem os pelos da barba a entupir o lavatório da casa de banho; que aceitem com naturalidade aquele nosso massagista maravilhoso que as amigas andam todas a cobiçar; que nos amparem quando bebemos de mais naquelas noites em que vamos ao Jamaica e depois ainda nos levam um guronzan à cama quando acordamos na manhã seguinte; que aturam a nossa família e se riam quando o gato lá de casa lhes faz xixi nos documentos do trabalho porque anda na altura de marcar território... Enfim, os exemplos podiam continuar, mas acho que já percebeste o que quero dizer. Esta angústia persegue-me há uns tempos, desde que o Carlos saiu de casa e foi de férias com a ex-namorada, precisamente a mesma que andou a encornar nos nossos primeiros tempos de namoro. É um raio de uma angústia tão grande que já me levou a comprar três pares de sapatos novos só na última semana e a investir um balurdio numa incrição num ginásio, porque entretanto descobri que estou cheia de celulite nos braços e meti na cabeça que esse é o primeiro sinal de velhice. Isto já para não falar do cheque que deixei ontem no cabeleireiro para sair de lá com umas belíssimas nuances e depois ir direitinha para casa sentar-me sózinha em frente à televisão. Bom, mas já estou a falar, quero dizer, a escrever demais. Tenho lido o teu blog e lembrei-me de te sugerir que lá escrevesses um pequeno anúncio em meu nome. Sei que é visitado diariamente por várias centenas de fiéis leitores e talvez um deles seja a minha outra metade, a mesma que, sem o saber, está por aí, à espera dos belos dos pêssegos (a metáfora ficou-me mesmo na cabeça...).

Obrigada pela tua ajuda e fico à espera da resposta. Ou das respostas, quem sabe. O Anúncio segue em anexo.


Minha boa amiga:

Podia dizer-te que esperasses calmamente, que continuasses a investir em sapatos (este Verão são maravilhosos, que eu própria já andei a investigar as novas tendências) e em muitas idas ao ginásio e ao cabeleireiro (já agora, celulite nos braços não é nenhum drama, acontece às melhores, acredita) - dizem que o exercício físico é do melhor e não há como mudar de penteado para nos sentirmos como novas. Apesar de tudo isso, não te vou dizer que em breve encontrarás a tua cara metade porque, lamentavelmente, a bola de cristal cá de casa não tem andado a funcionar muito bem nos últimos tempos, mas farei o que me pedes. Palpita-me que exageraste um pouco quando te referiste ao elevado número de leitores deste blog, mas, ainda assim, publicarei com muito prazer o pequeno texto que me envias.
Um abraço e não desesperes. Se entretanto nada acontecer, podes sempre tirar umas férias e passar uns tempos a viajar. Ou podes dedicar-te à pesca. Ou à cozinha e ao ponto de cruz. Ou então podes mesmo investir na escrita e publicar um romance. Sim, esta parece-me uma óptima ideia. Vê só o sucesso que teve a nossa querida Margarida Rebelo Pinto com aquelas suas histórias delicodoces. Mas nisso pensarás depois, em caso de desespero último e absoluto. Por agora, o meu conselho é que esqueças o idiota do Carlos e invistas numas noites bem passadas no Jamaica, que a música ajuda a limpar a alma (desde que não abuses do Jameson que lá vendem, que é fabricado em qualquer sítio menos na Irlanda).



ANÚNCIO
Se és jovem (a idade é uma coisa relativa, claro), bem parecido (alto, espadaúdo, olhos verdes...), livre e desimpedido (ou desiludido com a actual relação),
se gostas de assistir ao pôr-do-sol na esplanada da Graça e completaste o ensino secundário,
não negues à partida uma ciência que não conheces.
Acredita: o amor existe e não foi nenhuma invenção de Hollyood ou do Paulo Coelho.
Não desistas porque lá fora há alguém que espera por ti.
Se tens coragem para enfrentar a realidade, vai em frente:
larga o computador e deixa de perder tempo a ler blogues idiotas.
Atreve-te e luta pela felicidade,
porque há alguém que tem pêssegos para te oferecer.
Repostas a este blog
(assinatura ilegível)

5 Comments:

Blogger Kwan said...

Infelizmente não me qualifico... Mas junto envio Curriculum Vitae para futuras oportunidades. Agadecido.

2:37 da manhã  
Anonymous Nuno said...

Para esse peditório eu já dei!!

3:19 da manhã  
Blogger marsalho said...

Se procurares com atenção, se não te deixares desiludir por um ou outro defeito, e se estiveres disposta a fazer uma ou outra concessão, tenho a certeza que encontrarás quem procuras.

11:42 da manhã  
Blogger al said...

Bom, pêssegos não tenho, espadaúdo não sou... Restam-me os olhos verdes.

12:14 da tarde  
Blogger t&v said...

meus amigos: obrigada pelos vossos comentários/dicas. serão transmitidos à interessada :)

11:28 da tarde  

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