quinta-feira, fevereiro 10, 2005

Melhores amigas

A minha primeira melhor amiga passava comigo todas as férias de Verão, emprestava-me os seus melhores sapatos, e gastava horas a tentar esticar os meus caracois rebeldes depois de um dia de mar, para à noite irmos as duas espreitar os ingleses que inundavam a Praia da Rocha aos magotes. Foi ela que aturou o meu primeiro desaire amoroso, com um moreno de olhos verdes e dez anos de idade, que tinha uma bicicleta vermelha e me deixava rosas amarelas no guiador e bilhetinhos românticos cheios de erros de ortografia. Foi ela que, anos mais tarde, me emprestou dinheiro para pagar a renda quando decidi ser uma mulher independente e ir viver sózinha. Foi ela que me escreveu dezenas de cartas que ainda guardo e que encurtavam a distância entre Lisboa e o Algarve, nessa altura ainda a muitas horas de viagem. Foi a minha primeira melhor amiga e muito provavelmente a única, porque a inocência da amizade também se perde e a factura do deve e do haver, mesmo sem querermos, fica mais pesada à medida que os anos passam.

A minha primeira melhor amiga seguiu caminhos diferentes dos meus. Casou com um imbecil que acha que Ceuta fica na América e afundou os seus sonhos numa vida normal de esposa e mãe, que acorda de madrugada para ir pôr a filha ao infantário e deixar pronto o almoço do marido. Esqueceu-se dos livros que gostava de ler e tem uma estante na sala cheia de DVD com filmes de acção, os mesmos que antes detestava. Endividou-se até mais não poder para comprar a casa e o carro e desistiu de viajar porque o orçamento só chega para ir jantar fora uma vez por mês. Às vezes telefonamo-nos. Em 95% do tempo ela fala-me das gracinhas da filha, nos restantes 5% arrisca um ou outro comentário sobre o marido, em voz baixa que ele está na sala, de cerveja numa mão e comando na outra. Às vezes temos saudades uma da outra e tiramos uma noite só para nós, mas a Praia da Rocha já não tem o mesmo brilho de outros tempos, os rapazinhos ingleses deram lugar a turistas de terceira idade gordos e avermelhados e os bares onde antes bebiamos cervejas à borla há muito que fecharam as portas. Mesmo assim lá vamos, embebedar-nos as duas. E então, em 5% do tempo ela fala das gracinhas da filha e nos outros 95% recorda os namorados que teve, todos lindos e maravilhosos, bons partidos, inteligentes e cultos, fartinhos de saber onde fica Ceuta. No dia seguinte despedimo-nos e ela jura-me que é feliz.

7 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Bom dia!

De vez em quando passo pelo teu blog e hoje não resisto a deixar um comentário.

Tenho exactamente a mesma sensação em relação a uma pessoa que foi, em tempos, a minha melhor amiga. Era uma pessoa criativa, que escrevia poemas quando ficava mais em baixo, que me escrevia cartas atrás de cartas sobre o grande amor da sua vida (que mudava de 15 em 15 dias) e que vestia umas roupas estranhas para a cidade onde morávamos. Ela estava sempre um passo à frente! Um ser fantástico de ter ao lado.
Um dia apaixonou-se por um miúdo qualquer. Entrei em estado de choque quando o conheci e não lhe descobri nenhuma chama especial que a pudesse cativar.
Hoje está casada, numa casa normal, com uma decoração que nunca pensei pudesse ser a dela e pura e simplesmente não tenho nada para lhe dizer. Entristece-me reconhecer isso mas não há nada a fazer... nem todas as amizades sobrevivem ao desgaste do tempo.

S.

9:58 da manhã  
Blogger Bekx said...

Só para informar que os gajos bons e giros estão todos em Albufeira. Deixem lá isso da Praia da Rocha para o Zézé Camarinha e apareçam!

11:37 da manhã  
Blogger Magnolia said...

Como eu sei o que isso é...
Custa-me bastante ter de assistir às figuras tristes de uma grande amiga perante TODOS os namorados que arranja. Acontece que chegou uma altura em que já nem tenho pena dela (nem devo ter, mas enfim... lá que custa, custa, a mulher transforma-se, parece parva!!), começo a achar que sofre porque quer! Se deixamos que nos usem vezes sem conta, se preferimos perder a nossa personalidade (que é algo que me rebenta com os nervos) então é porque não queremos aprender com os erros. Mas os meus ombros vão continuar cá, sim, porque ela vai precisar. Outra e outra vez.

12:19 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

a sua melhor amiga continua lá, no passado da infância. Esta que aí está hoje provavelmente não é mais sua melhor amiga. E talvez seja realmente, feliz.
Aprendi com o tempo que as coisas mudam. Não necessariamente para melhor. E, nessa mudança, muitas perdas vão ocorrendo. E é duro pra caramba encarar isso!

maray

ps. cheguei aqui por conta do "tangos", minha paixão. Gostei.
Estou no www.gardenal.org/checaribe

12:44 da tarde  
Anonymous sandra said...

"porque a inocência da amizade também se perde" e também se ganha, em qualquer idade. Gostei. Continua!

12:38 da manhã  
Blogger Mascote said...

Gosto sempre muito de ler o que escreves. :)

10:18 da tarde  
Blogger C_de_Ciranda said...

Como sempre, um belo relato, apesar da tristeza do tema. De facto o tempo , muitas das vezes, não é o melhor conselheiro. Muitas vezes é o destruidor de sonhos e de expectativas. Difícil é sobreviver-lhe.

Beijinho grande minha querida e continua a escrever.

*** Ciranda

1:14 da manhã  

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