domingo, fevereiro 20, 2005

Anjo

Fazia-lhe lembrar um anjo de Botticelli. Um daqueles que vira inúmeras vezes nos anos passados no Vaticano a dissecar a Bíblia, mergulhado em intermináveis estudos teológicos. Por isso, quando a viu, só lhe passou pela cabeça que era um anjo. Um anjo de olhos azuis, caracóis loiros e, pior, um anjo no feminino. Porque, sabe-o agora, os anjos também têm sexo.

É em tudo isso que pensa enquanto percorre a passadeira vermelha da igreja, fato cinzento, gravata azul, olhos no chão, em direcção ao padre e à comunhão. Pensa no seu anjo loiro, que o fez desistir de tudo, esquecer os estudos no Vaticano, a carreira de sacerdote à sua frente, talvez chegasse a Bispo, dizia-lhe o seu confessor. Talvez, dizia para si próprio, mas quando fechava os olhos à noite, na solidão da cama de eterno solteiro porque a isso o obrigavam os votos e as juras do dia em que foi ordenado, quando fechava os olhos, era nela que pensava. Loira, de olhos cor do céu do verão, a olhar para ele e a pedir-lhe que nunca a deixasse. Que fugissem os dois. Que fizessem um filho e vivessem felizes para sempre.

Dois meses bastaram para ter a certeza de que estava apaixonado, que o seu amor por ela era maior do que tudo no mundo. Que graças a ele tudo seria capaz de ultrapassar. Por isso, pouco a pouco, foi-se deixando levar. E, de repente, já não importavam as velhas beatas à espera da missa da manhã à porta da igreja enquanto ele, o padre, viajava para o Algarve onde passaria o dia na praia. Já não importavam as velhas que cochichavam quando passava, e levantavam a voz para dizer que era tudo uma pouca-vergonha e que o mundo estava perdido e que ele dormia com ela.

Nem era verdade. Dormiram juntos pela primeira vez no dia em que presidiu à sua última missa e anunciou às velhas beatas que ia deixar de ser padre, que já tinha autorização da igreja e que a sua decisão era irreversível. Foi então, já livre dos compromissos espirituais, que se entregou à sua primeira noite de amor, com a ternura desajeitada do quarentão ainda virgem que a única certeza que tem é que está apaixonado como um miúdo de quinze.

Dois meses de paixão, recorda-se. Sessenta dias e sessenta noites em que mal saíram de casa, fizeram uma filha e ofereceram um ao outro juras de amor eterno. Onde foi que tudo começou a quebrar, pergunta-se agora, à medida que percorre o corredor da igreja. Não sabe. Talvez quando ela, o seu anjo, começou a lembrar-se que tinha apenas 18 anos, que preferia sair à noite a ficar em casa, à lareira a ler os clássicos e a ouvir ópera. Ou talvez quando ele próprio começou a ter saudades da sua vida de antigamente, a única que aprendera a viver, a única que se via a viver até ao fim dos seus dias.

Hoje vai comungar pela primeira vez. A igreja, esse monstro de bondade e de ódio, acedeu a conceder-lhe o perdão e, por isso, deixou oficialmente de ser um pecador. Porque é que, então, não consegue sentir-se feliz? Porque é que, na sua cabeça, continuam a misturar-se as lembranças dos dias passados na praia como dois namorados, dos olhos de anjo a pedirem-lhe que deixe tudo por ela, das noites de paixão e, por fim, da voz que lhe atira à cara os seus 40 anos e o seu passado do qual nunca conseguiu realmente libertar-se? Porque, sabe-o agora, além de terem sexo, os anjos também podem ser muito cruéis e o amor pode apagar-se, subitamente, numa qualquer passadeira vermelha.

2 Comments:

Blogger João Mãos de Tesoura said...

E desceu e fez-se diabo ... se Deus foi enganado .. ;)
Gostei do estilo! Parece o meu blog! :D
Parabéns

1:06 da manhã  
Blogger t&v said...

obrigada :)
volta sempre
t&v

11:59 da tarde  

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