quinta-feira, janeiro 27, 2005

Morrer de amores

Estou muito preocupada, sabe... O meu filho não é um rapaz qualquer. É licenciado em relações internacionais, trabalhou no estrangeiro, em Londres e Nova Iorque, é muito inteligente, até fala inglês, sabe? e fluentemente. Agora apareceu-me em casa e não sei o que lhe hei-de fazer. Foi esta mania dele pelo estrangeiro que o perdeu. Até arranjou uma namorada estrangeira, uma polaca. E andava tão apaixonado, o meu menino. Os olhos brilhavam, parecia que cantava quando falava dela. Depois mudou tudo. Foi na passagem de ano, sabe. A rapariga tinha um nome que nunca consegui aprender, um nome estrangeiro, claro, e nunca a cheguei a ver, porque ela dizia sempre que não podia acompanhá-lo na viagem até Lisboa. Mas ele já conhecia a família dela, os amigos, tinham ido a Varsóvia, acho que é a capital, não é? e tinha gostado muito. Cada vez estava mais apaixonado e caiu das nuvens quando na passagem de ano ela lhe disse que não, que desta vez era melhor ele não ir com ela visitar a família. Disse que andava muito cansada, tinha tido um ano muito difícil, e não lhe estava a apetecer fazer de tradutora entre ele e os seus pais. Porque o meu filho, que fala inglês fluente, até tentou aprender polaco ou lá o que é que eles falam lá, mas não teve tempo. E caiu das nuvens, pois claro. Viu logo que aquilo era desculpa dela. Mas ainda ficou à espera, só que ela não voltou e nem sequer lhe respondeu aos zémeiles, apesar de o rapaz passar os dias de volta do computador, a ver se ela dizia alguma coisa. O rapaz apanhou-me um esgotamento e agora não sei o lhe que hei-de fazer. Despediu-se da empresa em Londres e aterrou-me aqui em Lisboa feito num farrapo, sem emprego, sem namorada, sem amor-próprio. E não sai de casa, nem para ir à consulta no Júlio de Matos. Que ele não é maluco, claro, mas é lá que dão as consultas de psiquiatria e foi lá que o mandaram quando o levei às urgências do São José. Agora não sei o que lhe hei-de fazer. Não se lhe mete na cabeça que ninguém morre de amores e muito menos de amores por uma estrangeira qualquer, com um nome que ninguém consegue dizer. Está muito em baixo, o meu filho, sabe... Ando aqui noites inteiras a trabalhar, sempre no táxi, de um lado para o outro, sempre a pensar nele, e tem de ser, porque agora somos três bocas a comer lá em casa e ele está desempregado e é preciso dinheiro para as consultas no Júlio de Matos onde ele não quer ir. Não sei o que lhe faça... É aqui que fica, não é? Olhe, gostei muito de falar consigo, às vezes a gente precisa de desabafar. Aqui tem o seu recibo. Pode preenche-lo depois, com a quantia que lhe apetecer, que o Fisco não liga nada a estas coisas. Boa noite e agasalhe-se que está muito frio.

6 Comments:

Blogger papoila said...

oh...:(

11:04 da manhã  
Blogger Bekx said...

Todas iguais...todas!!!

12:52 da tarde  
Blogger gracinha, a artista do burlesco said...

ui! :-s

1:12 da tarde  
Blogger papoila said...

qual todas iguais?
Todos iguais, somos todos iguais, sim.

A alma humana é negra, essa é que é essa.
(e logo agora que só me apetece ter contacto com histórias lindas :( )

Beijos

p.s
então essa jantarada ou almoçarada ou lancharada? Vá! Tudo para o Chiado! Vou para lá agora, tomar o pequeno- almoço. :)

10:45 da manhã  
Blogger t&v said...

Boa ideia, Papoila, o Chiado é uma excelente sugestão. Em Fevereiro marcamos a coisa, parece-vos bem?
t&v

12:11 da manhã  
Blogger papoila said...

excelente.

Papoila

1:35 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home