segunda-feira, janeiro 17, 2005

(des)Encontros

O homem sentou-se na esplanada e esperou. Mais abaixo, na rua, os empregados da câmara tiravam as luzes do Natal. Homens e mulheres passavam por ele, apressados, sem o ver, sem ver. Ao lado, um casal espanhol revezava-se a tirar fotografias ao lado da estátua de Pessoa. Uma mulher vendia cachecóis às riscas e uma velha com um sorriso de menina estendia a mão à saída da Beneard. Ninguém a via. Como não viam a cidade, a nesga do Tejo, o sorriso que uma miuda deixara cair ao passar.

O homem esperou. Nesse dia tudo mudaria. Beatriz viria vê-lo. Chegaria à tarde, no comboio a seguir ao almoço, e encontrar-se-íam ali. Ela traria na mão "A Mensagem", o mesmo livro que os levara a, pela primeira vez, trocarem números de telefone. Ele teria em cima da mesa "O Livro do Desassosego". Assim se reconheceriam, se por acaso não bastasse um olhar para se encontrarem.

Há anos que se correspondem. Ele guarda em casa centenas de cartas com uma letra miudinha. Ela há-de ter outras tantas que ele lhe enviou. Nunca marcaram um encontro, mas ela conhece-o como ninguém. Nos milhares de caracteres que lhe escreveu está a sua vida. Aquilo que é, mas, sobretudo, o que nunca foi, perdido na inércia de um emprego das nove às cinco numa escura repartição pública.

Nos seus sonhos Beatriz é a mulher por quem sempre esperou. A quem pôde contar tudo de si. Com ela já viajou pelo mundo, já visitou a escrita dos grandes poetas, já escutou as melhores árias de Mozart. Tudo nas palavras que enviaram um ao outro. Por isso, no dia anterior anunciou ao chefe que não voltará à repartição. Lisboa será apenas o início de uma grande viagem sem destino escolhido.

Só por Beatriz teve a coragem de se soltar e de querer viver. Por isso espera. E nem nota que o dia vai desaparecendo e que está sentado na esplanada há muitas horas. Não nota que o sol se põe, que a multidão faz o percurso inverso, a caminho do Metro e que os turistas já não se fazem fotografar ao lado da estátua. Também não ouve o empregado que arruma as cadeiras e que avisa que vai fechar. Espera, ainda.

A trezentos quilómetros de distância, Beatriz prepara o jantar para os filhos. O marido chegará a casa daí a pouco e, mais uma vez, sentar-se-á no sofá, a olhar para a televisão. Daí só sairá para ir dormir e ao todo não terão trocado mais de duas frase. Sabe que em Lisboa está um homem à sua espera segurando na mão "O Livro do Desassosego". Chora em silêncio por não ter tido coragem de viver.

6 Comments:

Anonymous Anónimo said...

boffff... que depressão! Já agora, porque é que a gaja foi marcar o encontro, se já sabia que não ia?
Beijos
Gracinha

9:41 da manhã  
Blogger Mascote said...

Mais uma estória linda que nos contas! =)

1:22 da tarde  
Blogger C_de_Ciranda said...

Humm... Porque às vezes nos revelamos demasiadamente, com a escrita. Porque não há muitas das barreiras. Porque é mais fácil sermos nós próprios. Porque por vezes acabamos por nos edificar enquanto escrevemos. E, porque às vezes é preciso uma coragem desmedida para romper com aquilo que éramos e arriscar viver com o que hoje somos.

Eu própria podia contar-vos uma história, mas fica para outra vez. ;)

*** Ciranda

3:35 da manhã  
Blogger Bekx said...

Isto é uma espécie de Before Sunrise tuga...
Um bocadinho deprimente pelas personagens.
Basicamente o que querias dizer é que há vidas de merda!
E com este comentário, vindo dum poço de sensibilidade como eu, me fico!:)

1:08 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Bekx, boa interpretação.
Gracinha

2:54 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Este é com alguma certeza o melhor homem que passou por estes posts! ;)
Estou deliciado com a descrição… de incontáveis historias reais.
As vezes tememos agarrar os sonhos, outras o estar a acalentar ilusões.

Beijocas

Tay

5:24 da tarde  

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