domingo, dezembro 05, 2004

A duas vozes

ELE

Nada melhor para um homem se sentir livre do que uma semana fora, longe da mulher, dos gritos dos filhos, das noitadas até às tantas no escritório e do inevitável almoço de fim-de-semana na casa da sogra, onde a Sport TV é vista como coisa do Diabo e temos de gramar com desenhos animados a tarde inteira enquanto tentamos desesperadamente ler o Expresso (por sinal muito fraco na secção de desporto). Bem, mas dizia eu que não há melhor que uma viagem, ainda que em trabalho, para um país com sol (quando em Lisboa fazem dez graus negativos) e onde toda a gente usa bikini tamanho S. O D. fez-me uma pequena lista de sítios interessantes para ir à noite e aconselhou-me a tirar a aliança, para evitar perguntas chatas. Não tem nada de mais, não comecem já com coisas. A ideia era só mesmo desanuviar. E não há duvida que resultou. Não, nada disso, tirei a aliança no avião, discretamente, mas não arranjei nehuma namorada temporária daquelas que só sonham em vir para Portugal e adquirir a dupla nacionalidade por via do casamento com um pacóvio qualquer. Concentrei-me nas portuguesas, também todas animadas com as temperaturas elevadas, e fui um sucesso. Uma caipirinha a uma, um samba com outra, um pouco de charme e derretem-se todas. Sim, porque não são só os homens que se entusiasmam com estas viagens. Elas também gostam. Achei melhor disparar em várias direcções, que isto uma semana passa depressa e não havia tempo a perder, e não é que deu resultado? Palavra que em sete anos de casamento nunca me tinha metido numa destas, mas a J. sabe que eu a amo e que isto são episódios sem importância. De resto, quando a coisa já estava devidamente cozinhada e uma delas me esperava à noite no seu quarto do hotel, achei melhor não me meter em confusões e deixar por ali (até porque nesse dia tinha investido nas caipirinhas e era bem capaz de adormecer mal visse uma cama à frente). Não aconteceu nada, a semana correu lindamente e um gajo não é de ferro, claro, e de vez em quando é preciso lubrificar o ego, não é? Quando vi a J. e os miudos à minha espera no aeroporto fiquei todo satifeito. Felizmente tinha-me lembrado de voltar a colocar a aliança quando o funcionário do SEF, a inspeccionar a minha bagagem, deu com ela perdida num dos bolsos interiores da mala. Bendito SEF, lá me livrou de várias semanas a levar com as dores de cabeça nocturnas da J.


ELA

Não há paciência. Mal põem o pézinho no avião já estão a sonhar com o samba e a imaginar qual será a melhor maneira de se enrolarem com a primeira desprevenida (ou não) que lhes caia na conversa, como se fossem os maiores engatatões do mundo. Parece que é assim uma espécie de virus, que ataca a espécie masculina e lhes faz estoirar os neurónios, deixando-lhes as hormonas aos saltos. Depois é vê-los, respeitáveis pais de família, bebedos até cair, a dançar em cima da mesa ou ridiculamente atracados a meninas com saltos de dez centímetros que só querem sacar uns trocos ao portugês que chega cheio de euros e regressa com o cartão de crédiro a zeros e um par de havaianas para a mulher que lhe custaram meia dízia de reais mas que cá fazem um vistão. Não há mesmo paciência. Sentem-se os maiores e vá de derramar charme, convencidos que não há quem lhes resista. Tiram imediatamente a aliança, como se assim pudessem aplacar as crises de consciência, e vá de disparar olhares de carneiro mal morto, de carteira sempre em punho, a oferecer caipirinhas, que o verdadeiro macho latino não deixa que seja uma mulher a pagar. Alguns, com mais sorte, acabam na praia, a contar estrelas. Outros vão contar estrelas sózinhos, para o quarto do hotel, enquanto dizem a si próprios que se quisessem era só estalar o dedo para ter companhia, mas como são honestos e apaixonados pais de família fazem um esforço e ficam-se pelos delírios amorosos solitários, a pensar nas miúdas de bikini tamanho S que passeiam pelo calçadão sem preocupações com a celulite. Depois voltam a casa, felizes consigo próprios, beijinho aos filhos, abraço à mulher, querida, tive tantas saudades, meu amor vamos a correr para casa que esta semana foi tão longa!!! Claro que, entretanto, a aliança já regressou ao seu lugar e também eles se preparam para a vidinha habitual, na ilusão de terem vivido uma semana de sonho e convencidos que mantêm todos as suas brilhantes qualidades de macho, às quais nenhuma mulher resiste. Enfim, o amor é lindo. Sobetudo o amor pelo próprio umbigo...

2 Comments:

Blogger Bekx said...

Que post mais injusto!!
Um homem com paletes de gajas (portuguesas??) a volta consegue resistir a tentacao e ainda dizes mal??
Por essas e por outras e que muitos deles acabam mesmo por ir ate ao fim. Ja que se tem a fama, ao menos que se tenha o proveito!!)
E isto vale tanto para homens como para mulheres!!

2:28 da tarde  
Blogger t&v said...

pode ser injusto no sentido que tanto dá para homens como para mulheres, concordo. mas este era um post sobre homens, lamentamos muito :)

t&v

11:46 da tarde  

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