terça-feira, outubro 19, 2004

Eles e o dinheiro


Aniversário do primeiro mês de namoro
Vão jantar fora, ao melhor restaurante da cidade onde ele já fez a reserva há uns dias para assegurar aquela mesa com vista para o rio. Claro que pagará a conta. É um cavalheiro e ela merece. O cartão de crédito está perto do limite do plafond, mas ainda permite escolher aquele vinho reserva especial. De presente, oferece-lhe um perfume carérrimo de que ela anda a falar há dias. Ela mercece. E, depois, ele é um cavalheiro. Por isso também comprou bilhetes para o teatro, uma surpresa para esse fim-de-semana. Foram quase tão caros como o seu precisoso bilhete para o Benfica-Porto, mas que se lixe...

Aniversário do sexto mês de namoro
Mais um jantar à luz de velas (por que raio acham as mulheres tanta graça a essas mariquices?). Desta vez escolhe um restaurante no Bairro Alto. É do tipo tasca, mas depois sempre podem aproveitar e, a seguir, ir até ao Clube da Esquina beber um copo. À cautela, fez a reserva, que elas gostam dessas demonstrações de cavalheirismo, e no caminho compra-lhe uma rosa a um daqueles indianos chatos que as vendem na rua. O jantar é um sucesso, apesar de o ambiente ser um pouco barulhento e, no final, como ela insiste mais uma vez em partilhar a conta, aceita, com ar contrariado. Enfim, também não tem mal nenhum. As mulheres passam a vida a falar em igualdade, não é? Não andaram a queimar soutiens, a reclamar o direito de voto e outras tretas do género? Pois então que seja. Dividam-se as despesas, que assim é que deve ser.

Um ano de namoro
Velas, flores, jantar no Guincho. É um dia especial, porque decidiram ir viver juntos. A casa dela é maior, por isso nesse fim-de-semana mudou para lá as suas coisas. Os livros e os CD já estão arrumados na estante, juntamente com os dela, mas, como nunca se sabe o que o futuro nos reserva, assinou cada um deles discretamente. Decidiram que ele levaria o gato, herdado de uma anterior namorada (pormenor sem importância, que ela nem precisa saber) e negociaram as tarefas domésticas. Num gesto de grande generosidade, propôs-lhe abrirem uma conta conjunta no banco. Amam-se, não é? Vão partilhar as suas vidas, por isso o dinheiro é apenas um pormenor sem importância. Além disso, assim é mais fácil dividir as despesas. Ela ganha um pouco mais do que ele, mas já decidiu não ligar muito a esse pequeno pormenor. É um homem moderno.

Tempos depois
Por que raio comprou ela mais um par de sapatos depois de há apenas uns dias ter gasto 200 euros numas ridículas botas Pablo Fuster? Olha para o extracto do cartão de crédito à beira de uma apoplexia, mas não sabe se lhe apetece ter mais uma discussão só por causa de dinheiro. Na semana passada foi o que se passou, depois de ela ter encomendado 150 euros em compras no Continente on-line. Tentou explicar-lhe que era muito melhor irem ao Lidle, onde os detergentes são baratíssimos e o papel higiénico é ao preço da chuva. Que mania esta, de querer usar folha dupla, quando a simples serve exactamente para o mesmo! Começa a pensar que o melhor é cada um ter a sua própria conta bancária. Se ela ganha tão bem, então que compre o seu próprio papel higiénico de folha dupla mais os cremes para a cara da Clinique. Um homem é um cavalheiro, mas há limites para tudo! Claro que ele próprio há uns dias fez umas melhorias no seu carro, mas um carro é um carro, não é?

Mais tempos depois (meses, anos, depende dos casos...)
Não dá para continuar. A chama apagou-se. A vida é assim mesmo e, como diz o poeta, o amor é infinito enquanto dura. Se soubesse o que sabe hoje, nunca teria aceite casar-se. Se tivessem apenas vivido juntos, sem a porcaria do papel, tudo seria mais fácil. Agora é uma chatice. Ela quer que ele lhe reembolse parte das prestações da casa que pagou nos últimos tempos. Diz que é um bem comum do casal, ou uma merda do género. A coisa complicou-se tanto que o divórcio por mútuo consentimento já evoluiu para o litigioso. Vai gastar um dinheirão com o advogado, mas ela há-de perceber que ele não é nenhum otário. Até teve a lata de lhe exigir que pague uns sofás e uns cortinados novos, porque o gato destruiu os antigos a afiar as unhas. E todos os jantares, cinemas, cafés e malas Prada que ele pagou? quem lhe reembolsa essas despesas? No dia em que separaram os livros e os CD tiveram uma discussão homérica, mas ele saiu-se lindamente exibindo a discreta assinatura que tinha nos seus. Homem prevenido... Nunca mais se mete noutra. Querem igualdade, não é? Pois fiquem sabendo que nestas coisas do dinheiro o cavalheirismo está fora de moda.

2 Comments:

Blogger Bekx said...

Acho que o "ele" que mencionas deve ser um perfeito atrasado mental! De qualquer maneira não generalizes porque não somos todos iguais e ainda há cavalheiros. Once a gentleman, always a gentleman. Eu até me identifico bem mais com ela!:)

12:40 da tarde  
Blogger t&v said...

Bekx:
claro que isto está um bocadinho exagerado, mas a verdade é que as pessoas dão demasiada importância ao dinheiro. foi só isso que eu quis dizer. e não vale a pena. quanto aos cavalheiros... bem, isso já é outra conversa :)

10:28 da tarde  

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