sexta-feira, outubro 15, 2004

Casamentos: o amor paira no ar...

Cena 1

A noiva parece um suspiro no seu vestido de tule. O noivo sua por todos os lados, enfiado no fato e gravata. Na primeira fila dos bancos da igreja, os pais e os padrinhos, aperaltados à altura do acontecimento, trocam olhares de felicidade e emoção. As mães vertem as lágrimas da praxe e os pais, a transpirar por todos os poros, tal como o noivo, olham-se desconfiados, já imaginar como é que, no futuro, vão competir um com o outro nos barbecus de domingo lá em casa. Nas filas mais atrás, família, amigos, namorados e namoradas de amigos, amigas e amigos sem namorados(as) contam os minutos a ver quando é que acabará aquela sauna e desesperam, porque já são três da tarde e só depois da inevitável sessão de fotografias é que poderão atacar o buffet. É Agosto e o amor paira no ar, juntamente com os rebentos dos amigos e familiares que, vá-se lá saber porquê, não páram de saltar e berrar, a insistir que estão fartos daquilo e querem ir lá para fora comer gelados.

Cena 2

Flores por todos os lados assinalam o percurso até à tenda onde o copo-de-água aguarda os famintos convidados. O cisne de gelo já começou a derreter, mas a torre de camarões continua com um aspecto convidativo, se bem que, com o calor, nunca se sabe. À cautela, é melhor passar ao lado da maionese. Os convidados entram e atacam, como se tivesse acabado de chegar a cavalaria. Antes têm de descobrir em que mesa vão ficar, na lista que foi colada na parede, logo a seguir à torre de camarões que entretanto já começou a ruir. Casados para um lado, solteiros para outro. A noiva tratou de tudo ao milímetro, para que, quem foi sózinho, não fique desemparelhado e as amigas solteiras aguardam ansiosas, para ver quem lhes calhou no lugar do lado. Afinal, o amor paira no ar, e nunca se sabe...

Cena 3

Já ninguém aguenta os gritos dos 324 miúdos que correm pela sala. Dois deles já bateram com a cabeça no chão e lá foi preciso recorrer ao gelo que ainda restava do cisne. Um dos convidados bebeu demais e insiste em dizer ao noivo que o melhor é pôr-se a milhas, que o casamento ainda não foi consumado e por isso pode pedir a anulação ao Papa. A mulher dele tenta arrastá-lo para fora, mas ele garante que se soubesse o que sabe hoje era isso mesmo que teria feito. Nas mesas dos solteiros, a coisa não corre muito melhor. A Ana já se zangou com o Paulo, que olhou o tempo todo para as pernas da Rita e a Júlia está toda derretida com o Filipe, que, por sua vez, está a ver se arranja uma desculpa suficientemente plausivel para se pirar dali, como dizer que a avó morreu ou coisa do género. O Pedro, amigo do noivo, ficou ao lado da Joana, amiga da noiva. Ela acha que a amiga se armou em casamenteira quando lhe escolheu o lugar e está amuada e ele não consegue pensar em nada para dizer porque, precisamente na mesa ao lado, está a sua ex-namorada, que veio acompanhada do novo apêndice, um baixinho careca cheio de dinheiro. O amor paira no ar.

Cena 4

Hora do bolo e do champanhe. Fazem-se brindes. As mães voltam a chorar. As tias também. O noivo já bebeu tanto que sobe para cima da mesa e começa a tirar a roupa. A noiva também chora, porque os sapatos novos lhe apertam os joanetes. O padrinho consegue tirar o noivo de cima da mesa e convencê-lo a abrir o baile. A música, tal como o amor, paira no ar. Os miudos, esses já estão no chão, a dormir pelos cantos. O suplício termina lá para as três da manhã. O casamento foi lindo e maravilhoso. No próximo fim de semana há outro. Parece que toda a gente insiste em casar no Verão. Ai, o amor, o amor... É lindo, pois claro. E quem é que não sonha com um casamento de sonho?

3 Comments:

Blogger gracinha, a artista do burlesco said...

Eu sonho sempre com o casamento de sonho dos outros! Adoro casamentos! É onde me divirto mais! Então quando já está tudo grosso é a loucura!
Esqueceste-te de mencionar a luta feroz pelo buquet, em que as gajas se fazem desentedidas, mas depois quase se arrancam os cabelos (sempre discretamente) para ver se o apanham. E a (disfarçada) infeliz que o apanha olha para as outras que (disfarçadas) se riem e dizem 'Eu não quero! fica tu com ele'...
Gajas! Ainda acreditam em superstições!...

12:37 da manhã  
Blogger al said...

Até que enfim há alguém que compreende a minha cruzada contra os casamentos no pino de Agosto, com gente a destilar por todos os lados. Mas dão umas fotografias bonitas - para quem aprecia o estilo e lá as vai tirar, debaixo daquele sol inclemente das três da tarde; eu já lancei a toalha, e fico-me sempre pelo sítio mais sombrio e simultaneamente mais perto dos gins tónicos.

Fiz questão de casar em Fevereiro, mas o meu exemplo não fez escola...

7:11 da tarde  
Blogger Bekx said...

Adoro casamentos!!

6:13 da tarde  

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