segunda-feira, setembro 27, 2004

Quem é, afinal, feliz?

Olha furiosa para o marido e sussurra-lhe baixinho:
- Não me dês ordens como se eu fosse tua criada!!
No meio do barulho infernal dos miudos, ninguém se apercebe das palavras nem dos olhares de fúria. Dela, porque ele permanece imperturbável. Ignora-a olimpicamente e passa-lhe para as mãos o monte de sacos com as prendas de aniversário da filha.
Ela respira fundo, ensaia o seu melhor sorriso e continua como se nada tivesse acontecido. É a mãe perfeita e tem de continuar assim. Assoa o nariz da filha mais nova, segura-lhe o gelado que começa a derreter e corre a ver se está tudo bem com a mais velha, quase à beira de um ataque de choro porque um dos amiguinhos lhe esfregou delicadamente no cabelo o que restava do bolo de aniversário.
O pai estremoso, finge que não é nada com ele e continua à conversa com o progenitor de um dos diabinhos convidados, que por acaso também trabalha lá no banco.
Ele tem 33 anos mas aparenta 40. Deixou crescer a barriga, perdeu uma boa parte do cabelo, e tem uma quase permanente expressão alienada, que só tira do rosto quando assiste aos jogos do Sporting.
Ela continua bonita mas nota-se-lhe nas rugas à volta dos olhos o cansaço de quem acorda às seis da manhã para preparar as miudas para a escola e só se deita já muito tarde, depois de ter passado a ferro toda a roupa da prole mais as camisas do marido.
Às vezes Joana, a melhor amiga, ainda solteira, pergunta-lhe se é feliz. O sorriso que acompanha a resposta é triste, quase tí­mido, e as palavras são de uma alegria forçada. Claro que sim, que é feliz. Há lá coisa melhor no mundo que ter duas filhas lindas e maravilhosas?
Pois... Haverá?
E ela? os seus sonhos? as viagens ao estrangeiro que nunca fez porque o dinheiro não chega para tudo? e as idas ao cinema, onde não põe os pés há anos? e ao teatro? e os livros que não tem tempo para ler?
- Vamos jantar na sexta-feira? Deixo as miudas com o pai e vamos sair as duas. Jantamos e vamos ao Bairro Alto, embebedamo-nos...
Vamos, claro, responde a amiga. Já sabe que na sexta de manhã ela lhe telefonará a dizer que afinal não pode, mas responde que sim, claro.
Para ela, Joana é a mais feliz das suas amigas. Não tem filhos, o que é uma falha grave, mas tem todo o tempo do mundo para si, pode mudar de namorado quando lhe apetecer e, acredita, tem uma animadissima vida sexual, que não tem nada a ver com o sexo às sextas-feiras lá em casa.
Joana sabe que ela pensa assim e não a contraria. Sempre que estão juntas é sobretudo ela que fala. Do marido, das filhas, das filhas e do marido. Joana ouve-a e raramente falo de si.
Talvez porque no fundo se sinta dividida. Porque não quereria nunca ter um homem que lhe falasse como se ela fosse sua criada, mas porque, ao mesmo tempo, também sabe que a sua vida é muito pouco daquilo que a amiga pensa que é.
Ela chega a casa à noite e sabe que terá de passar a ferro a roupa da prole a as camisas do marido. Joana chega a casa à noite e só tem de alimentar o gato.
Ela tem um marido idiota que já se esqueceu de a amar. Joana já não sabe se acredita no amor.
Quem é, afinal, feliz?

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

fantástico post.

não deixa de ser curioso constatar que das duas uma:

ou somos casados e vivemos "assim" ou somos "sós" e vivemos "assado". Há aqui uma dicotomia que revela pouca criatividade. Há esta assunção de dois modelos. Ou és casado e tens filhinhos e vives sem tempo pa ti ou és só.
Reinventar as relações, para além de ser um lugar comum, implica uma ideia de utopia/lirismo que de imediato nos faz desistir da ideia. Isso implicaria toda uma conduta fracturante, praticamente impossível de colocar na prática, de tal modo estamos sedimentados e incapazes de romper com o que nos sustenta. Anda tudo a reboque e o problema é que viver em sociedade implica sempre um bocadinho desse seguidismo. A vida, tal qual a conhecemos, não se compadece com devaneios originais e visionarismos de circunstância. Portanto: ou casas e de repente tens uma vidinha igual ou parecida àquela que antes condenavas e que te causava a maior urticária, ou assumes o trilho da solidão.

Parece-me mesmo que o problema passa por aí. Anda tudo à procura de ser feliz fora de si.

11:49 da manhã  
Blogger Bekx said...

A felicidade depende, em grande parte, de nós. Depende da fuga às rotinas (más) e da busca de algo que nos motive... Neste aspecto é irrelevante estar casado ou solteiro. As mudanças e os cortes com o que está mal são, muitas vezes, difíceis mas inevitáveis para quem quer ser feliz. Prolongar relações, empregos e estados de espírito que não nos preenchem de nada serve. Não é fácil, mas é bem possível sermos felizes. A própria busca da felicidade é, por si só, uma motivação. É só querermos...

1:28 da tarde  
Blogger D said...

Não chega sequer a ser inveja que sentem uma da outra, talvez sim incompreensão. Do mundo que rodeia cada uma. Do mundo que rodeia as ideias que cada uma tem do real que a outra vive. Ou aparenta viver.
Quem é, afinal, feliz? Quem, apesar de nada e tudo, ao fim-do-dia, ainda consegue sorrir.

(gosto muito do que nos deixas ler aqui)

10:24 da tarde  

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