terça-feira, setembro 21, 2004

Contos de fadas modernos

Francisco e Rodrigo. Os nomes não importam. São de famílias bem. Um tem sangue azul e algum (pouco) dinheiro. O outro tem muito dinheiro e um avô que subiu a pulso e fez fortuna. Têm licenciaturas, mestrados no estrangeiro, pretensões a gestores de empresas (as da família, naturalmente). Frequentam os melhores restaurantes e vão a todas as festas da moda. Não saem nas revistas sociais, porque não é "bem" e dizem sófa em vez de sofá, enterro em vez de funeral, encarnado e nunca vermelho. Tratam toda a gente por "você" e têm imensos tios e tias. Andam a cavalo, compram o Expresso ao fim de semana e o último livro que folhearam foi a lista telefónica.

Francisco e Rodrigo querem casar e ter muitos filhos. Procuram uma noiva. Mas a sua futura mulher (não a futura esposa, que essa palavra também é proibida) tem de ser... uma princesa. Isso mesmo. Uma princesa. Pode ser feia, gorda, careca, ... mas tem de ter sangue azul. Por isso torram o dinheiro da família em viagens ao Mónaco, desdobram-se para um convite para as festas dos colunáveis espanhóis, arranjaram maneira de estar nos últimos casamentos da nobreza europeia e, o que é mais extraordináro, conseguiram-no. Sabem que o dinheiro acaba por comprar tudo. E acreditam firmemente que hão-de ter as suas noivas de sangue azul.

Francisco e Rodrigo parecem dois homens normais. Até abrirem a boca. Depois disso, quem não consegue abrir a boca é o interlocutor, o normalzinho português que (às vezes) ainda acredita que o amor é mais importante do que tudo o resto.

Francisco e Rodrigo existem mesmo. Eu, ingenuamente, acreditava que figuras como eles já tinham desaparecido da face da Terra e ainda estou a recuperar-me do choque.

4 Comments:

Blogger Bekx said...

Eu acho que há, cada vez mais, gente assim. E até te digo que, mais do que os homens, o que me assusta verdadeiramente são as mulheres.

12:50 da tarde  
Blogger aNa said...

olá. é a primeira que aqui venho. gostei muito. mesmo muito!

4:35 da tarde  
Blogger al said...

Se este não é o melhor blog que conheço, certamente anda lá muito perto; as sequências "A duas vozes" são assustadoramente reais. Por favor, continua.

7:50 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

choque? mas porquê um choque? há idiotas em todo o lado, não? Sempre houve, aliás. Parece-me que essa ausência de indiferença é reveladora de qualquer coisa...Será que bem lá no fundo não há um qualquer deslumbramento camuflado e quiça algo recalcado com essa realidade? Não terá vc nalgum momento da sua vida dito tb enterro e encarnado? E até mesmo sófá? Faz-me lembrar aquela conversa deprimente do gajo que diz que o Lux é giro mas que tem muito gay. E a indiferença onde é fica ( e o respeito, já agora...)? Eu até percebo que o tema ( os tios, etc) tenha potencial para post.Não é isso que me espanta. É o choque, o seu "choque" perante uma realidade que, pelos vistos tão bem conhece.

:)

PS: Raia o Muito Bom, o seu blog.

11:36 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home